Escrito por: Inês Cardoso.

Durante os nove meses de estágio como Assistente de Apoio Social na RESHAPE (de setembro de 2021 até maio de 2022), tive a excelente oportunidade de trabalhar na minha área académica – psicologia criminal – onde adquiri competências, conhecimentos e aprendizagens que vou levar para o resto do meu percurso. Fazer a ligação entre a teoria e a prática era um dos meus principais objetivos para este estágio, que foi alcançado com sucesso. Gostaria, então, de partilhar cinco dos aspetos mais importantes que aprendi com esta experiência, que não só me fez crescer a nível profissional, como também pessoal.

#1. VI O OUTRO LADO DA CRIMINOLOGIA

Os temas abordados no meu curso, sempre foram mais focados na vitimologia e nos motivos por trás de um crime. Apesar de também se ensinar sobre a reabilitação de ex-reclusos, não se aborda com tanta frequência o tema prisão, aquilo que se passa lá dentro, as consequências de certas sentenças e como estas podem prejudicar o futuro, a longo prazo, de certas pessoas. Durante estes meses de estágio, tive a oportunidade de trabalhar tanto com ex-reclusos, como com reclusos, em contexto prisional, o que me trouxe uma realidade completamente diferente daquela que estava à espera.

Antes de começar o estágio, posso garantir que nunca tinha pensado em casas de detenção, de pequena dimensão, inseridas na sociedade como alternativa ao modelo de prisão convencional. Agora, passado nove meses, é certamente o que considero o mais correto tanto para a vida das pessoas que estão em contacto com o sistema prisional, como para a segurança da sociedade. Aprendi muito sobre as dificuldades que estas pessoas passam, tanto lá dentro como quando em liberdade, e como devemos agir para as tentar ajudar da melhor forma possível. Todo este conhecimento vai ser levado comigo e teve um impacto extremamente positivo no meu percurso académico, sendo uma área em que quero continuar a explorar e a aprender.

#2 SAIR DA ZONA DE CONFORTO NÃO É FÁCIL, MAS VAI VALER A PENA

Um dos meus maiores objetivos pessoais para este estágio era sair da minha zona de conforto, desafiar-me e superar os meus medos. Posso dizer, com bastante orgulho, que consegui. Tentava ao máximo concretizar todas as tarefas que me eram propostas, mesmo aquelas em que não me sentia tão confortável, como falar em contexto de grupo ou fazer atendimentos sozinha. Mas vi-as como oportunidades de crescimento e superação de dificuldades.

Quando o Ser Humano é posto em situações desconhecidas, o primeiro pensamento é o de rejeitar esse desafio e achar que não é capaz, mas se der uma oportunidade pode ser que seja surpreendido. Quanto mais atendimentos fazia, mais confortável me sentia, as minhas intervenções eram mais habituais e naturais, sentia que a relação com os beneficiários ia ficando mais próxima e que o meu trabalho estava a ter um impacto positivo na vida das pessoas que acompanhava. Falar em público, principalmente em contexto de grupo, sempre foi um grande desafio para mim – e ainda é – mas sempre que o fiz, tentei dar o meu melhor e pensar que me ia ajudar a crescer. Estas experiências não foram fáceis, com muitos pensamentos e inseguranças à mistura, mas no fim valeu a pena, porque cresci como pessoa e evoluí a nível profissional.

#3 DESENVOLVI A MINHA RESPONSABILIDADE NA TOMADA DE DECISÕES E ADAPTAÇÃO A NOVAS SITUAÇÕES

Ao longo do meu estágio, fui-me sentindo cada vez mais independente e proativa nas várias tarefas que me eram propostas. Tive sempre orientação e apoio dos meus mentores, no entanto, houve situações em que tive de tomar decisões por mim, caso a caso, e nem sempre há respostas certas ou erradas. Com estas experiências, desenvolvi a minha capacidade de tomada de decisões e de avaliar prioridades, aumentei a minha confiança e senti a responsabilidade e dedicação que me era exigida, tentando sempre corresponder da melhor maneira aos desafios com que me fui deparando.

Por sermos uma equipa pequena, a adaptação e o multitasking fazem parte da rotina. Confesso que foi uma surpresa quando entrei na RESHAPE. Não só exerci as minhas tarefas no Gabinete de Reinserção Socio Laboral, que por si só exigiam adaptação e resolução de problemas, porque cada caso é um caso, mas também dei apoio na procura de emprego, na construção do manual para os programas de voluntariado no terreno e na criação de flyers, power-points e booklets – tendo a oportunidade de desenvolver bastante as minhas competências digitais ao longo dos meses, no Gabinete e durante a organização do Prison Insights ’22. Olhando para trás, todas estas experiências me fizeram adaptar a novas situações e aprender a resolver problemas em diferentes áreas e de forma cada vez mais eficiente.

#4 É NORMAL FAZER PERGUNTAS E COMETER ERROS

Sempre fui aquela pessoa que diz que sim a tudo, quero fazer o meu trabalho da melhor forma possível, e se me pediram algo é porque sabem que tenho as capacidades para o fazer. Não gosto de falhar, e esforço-me continuamente para fazer o meu melhor. No entanto, muitas vezes tive de aceitar que este trabalho foi a minha primeira experiência profissional, e que é normal estar na dúvida sobre o que fazer, como fazer e surgirem inúmeras perguntas. Lembro-me de, no início, achar que estava a ser inconveniente ou pouco profissional ao fazer certas perguntas, que iam achar que não estava atenta ou que estava a ser um incómodo, mas realmente foram essas perguntas que me fizeram cada vez mais independente e confiante no meu trabalho.

Ao longo do caminho também cometi erros. No início, foi bastante difícil aceitar essas falhas. O bom de cometer erros é que se tornam em ensinamentos e graças a isso desenvolvi novas competências – como o olhar atento ao mais pequeno pormenor – que serão, sem dúvida, muito úteis na minha próxima experiência profissional.

#5 O SISTEMA PRISIONAL NÃO É TABU 

Como a Sara Hyde nos ensinou no Prison Insights ’22Precisamos de falar sobre as prisões. Sendo estudante de psicologia criminal, os temas prisão, reclusos, crime, vítimas, sentenças e punições são algo que faz parte no meu dia a dia, como aluna, e que me rodeia diariamente no meu tempo na universidade. No entanto, quando comecei o estágio, reparei que o sistema criminal e prisional são muitas vezes desconhecidos por grande parte da sociedade, que não tem conhecimento sobre o que se passa dentro de uma prisão, incluindo a forma como os reclusos são tratados, quais os seus deveres e principais dificuldades. Isto fez-me perceber que estava a viver numa bolha, rodeada de pessoas interessadas no mesmo tema, a ensinarem e discutirem os mesmos ideais pelos quais me tento reger.

Questionei-me, quantas pessoas realmente estão informadas sobre o que se passa dentro de uma prisão? Quais as dificuldades que os reclusos enfrentam lá dentro? E quando já estão em liberdade, o que lhes acontece? Não há informação suficiente a circular sobre este sistema, o que faz com que as pessoas criem uma opinião, sem fundamentos que a apoiem. Confesso que também eu não tinha conhecimentos sobre tudo o que presenciei dentro das prisões. É necessário normalizar este sistema, como qualquer outro, e perceber que as pessoas que estão em contacto com ele, fazem parte da nossa sociedade, e que um dia irão voltar para a vida em comunidade, sendo necessário prestar a devida reabilitação e apoio, para uma reinserção social bem-sucedida.

Concluindo, foram nove meses muito enriquecedores, cheios de aprendizagem e novos desafios. Cresci muito como pessoa e sei que levo daqui competências chave para o meu futuro. Obrigada ao Duarte por confiar em mim e me ter dado esta oportunidade; obrigada a toda a equipa da RESHAPE que fez parte desta fase da minha vida tão importante e um obrigada muito especial à Catarina, que tanto me ensinou na área de Apoio Social e sempre me apoiou neste percurso. Irei continuar este caminho, e espero que um dia nos voltemos a encontrar, a fazer a diferença, porque depende de todos.

Fotografia de Magnet.me, via Unsplash.

Inês Cardoso
Assistente de Apoio Social