Antes do emprego, o caminho: a história de Abdoulay

A reintegração socioprofissional nem sempre começa com a procura de emprego. A história de Abdoulay mostra como o acompanhamento individualizado, a articulação entre organizações e a disponibilidade das empresas podem transformar obstáculos em oportunidades reais.

Quando um beneficiário é sinalizado à RESHAPE, nem sempre reúne todas as condições necessárias para entrar no mercado de trabalho.

Antes de pensar num emprego, há necessidades básicas que precisam de ser asseguradas, questões burocráticas por resolver e, muitas vezes, um projeto de vida por reconstruir.

É por isso que o trabalho do Gabinete Reshape vai muito além da procura de oportunidades profissionais. Cada pessoa chega com uma história, necessidades e objetivos diferentes. O acompanhamento começa por compreender essa realidade e identificar os passos necessários para construir um percurso de maior estabilidade e autonomia.

A história de Abdoulay é um exemplo desse trabalho.

Um percurso que começou muito antes do emprego

Abdoulay foi sinalizado ao Gabinete Reshape em janeiro de 2026.

No primeiro atendimento, fizemos um levantamento das suas necessidades e identificámos um dos principais obstáculos à sua reintegração socioprofissional: a situação documental encontrava-se por regularizar.

Esta condição, por si só, limitava o acesso ao trabalho, a oportunidades de capacitação e à estabilidade necessária para construir um novo projeto de vida.

Foi a partir daqui que começámos o acompanhamento.

Ao longo dos meses seguintes, trabalhámos com Abdoulay diferentes dimensões do seu percurso, em simultâneo:

  • Apoio na regularização da documentação e na resolução de outras questões burocráticas;
  • Definição de um projeto de vida, tendo em conta os seus interesses, objetivos e expectativas;
  • Desenvolvimento de competências e elaboração do currículo;
  • Articulação com a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP), nomeadamente com a técnica da Equipa de Reinserção Social e com a Equipa de Vigilância Eletrónica;
  • Encaminhamento para respostas e parceiros capazes de dar continuidade ao seu percurso.

Nenhum destes passos acontece necessariamente depressa. E nenhum é menos importante do que o seguinte.

Antes da empregabilidade, é muitas vezes necessário criar condições de estabilidade.

Quando o trabalho em rede cria oportunidades

Neste percurso, a articulação com outras organizações revelou-se fundamental.

Em colaboração com a CAIS, encaminhámos Abdoulay para uma iniciativa de capacitação promovida por esta organização em parceria com a BP, com início em setembro de 2026.

A iniciativa incluía um estágio de 60 horas e a possibilidade de contratação no final, mediante uma avaliação positiva.

Para Abdoulay, representava uma oportunidade de desenvolver competências, conhecer um contexto real de trabalho e demonstrar o seu potencial.

A experiência foi muito positiva. Ao longo do estágio, Abdoulay partilhou connosco que estava a aprender muito e a valorizar a oportunidade.

No final, o estágio resultou numa contratação.

Um resultado que representa não apenas o acesso ao mercado de trabalho, mas também mais um passo na construção de um percurso de autonomia e estabilidade.

A reintegração é uma responsabilidade partilhada

O percurso de Abdoulay demonstra a importância de respostas articuladas e de um acompanhamento que não se limita a encontrar uma vaga de emprego.

A regularização da documentação, a definição de objetivos, o desenvolvimento de competências e a ligação a organizações e empresas foram etapas fundamentais para que esta oportunidade se concretizasse.

Deixamos um agradecimento especial à CAIS, pela parceria e pelo trabalho conjunto, e à BP, pela disponibilidade e abertura para acolher e contratar Abdoulay.

É também através desta disponibilidade das empresas que um percurso construído com acompanhamento e persistência pode transformar-se numa oportunidade profissional concreta.

A história de Abdoulay lembra-nos que a reintegração não começa no currículo nem termina no contrato de trabalho.

Começa muito antes, na resposta às necessidades de cada pessoa, e depende de uma rede capaz de trabalhar de forma articulada: técnicos, instituições, parceiros e empresas.

Quando essa rede funciona, os resultados tornam-se visíveis.

E, neste caso, traduzem-se numa pessoa que hoje tem um emprego e novas possibilidades para construir o seu futuro.

Catarina Soares
Catarina SoaresSocial Impact Project Manager