Arte e Cultura como mediadoras de reinserção social em contexto prisional

O direito à fruição cultural está explícito na Constituição em vigor. No entanto, enquanto profissional da cultura, sei que o grande desafio continua a ser garantir acessibilidade. Cultura e artes caminham muitas vezes lado a lado com a ação social, respondendo a desafios comuns ligados à inclusão, desenvolvimento humano e justiça social. Mas é essencial refletir sobre o que realmente significa acessibilidade e inclusão cultural, especialmente quando muitos projetos ainda carecem de acompanhamento social.

Partindo deste ponto e da minha experiência pessoal, surge a reflexão: como podem a arte e a cultura ser mediadoras de reinserção social em contexto prisional?

Pinto (2021) destaca que “a arte e os projetos criativos dentro dos estabelecimentos prisionais têm como objetivos a reabilitação da pessoa privada de liberdade, a recuperação da autoestima, a aquisição de conhecimentos e o desenvolvimento de competências”. Assim, reconhecemos a arte como ferramenta educativa e de reinserção social. Como defende Read (2007), a educação deve integrar a singularidade individual com a unidade social.

Ter uma televisão na cela, acesso a livros ou a projetos pontuais não garante que o direito à fruição cultural esteja a ser cumprido. A arte e a cultura não são apenas entretenimento; são experiências transformadoras, capazes de gerar consciência crítica, autonomia emocional e empowerment.

As emoções estão sempre presentes no contacto com a arte. Para alguém privado de liberdade, a ausência ou limitação desse contacto pode atrasar o desenvolvimento pessoal e emocional. Qualquer ação que envolva e sensibilize a comunidade prisional é, portanto, um ganho para toda a sociedade.

Para grupos vulneráveis, é fundamental que durante a pena sejam adquiridas competências sociais e emocionais que facilitem a reintegração e reduzam a reincidência. A educação não formal através da arte e da cultura revela-se uma linguagem acessível e sensível.

A minha experiência começou há dois anos, como voluntária no Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus. Foi lá que percebi como tudo faz sentido. Numa dinâmica em que levei autorretratos e o tema eram as emoções, um participante disse: “Nunca tinha percebido porque é que as pessoas ficavam horas a olhar para quadros em museus, hoje percebi que uma imagem pode ter vários significados, e que me desperta algo que eu não sabia que tinha”. Esse momento marcou-me profundamente, pois percebi qual era o meu lugar ali.

A Academia Reshape, ao longo dos 10 anos de atuação da Reshape, mostra através de relatos de participantes o impacto positivo das sessões no bem‑estar emocional, autoconhecimento e capacidade de enfrentar desafios pessoais. A partilha de experiências, o desenvolvimento do pensamento crítico e a empatia dentro dos grupos são resultados consistentes e observáveis.

Como mediadora cultural, vejo que é essencial mobilizar profissionais além das instituições culturais convencionais. Se a acessibilidade cultural não está garantida, não podemos esperar que o público venha procurar cultura: é a cultura que deve chegar às pessoas.

Num contexto prisional, o papel de um mediador artístico e cultural inclui dinamizar ações, ouvir, investigar, questionar, observar e criar pontes entre artistas, obras e pessoas. Temos a capacidade de identificar porque a cultura não chega a todos e de atuar para transformar essa realidade.

Hoje, enquanto gestora de programas de terreno, mantenho esta convicção e acrescento evidência prática.

Além da experiência na Academia Reshape, destaco o projeto Trégua, que acompanho desde a faculdade e que demonstra que é possível alinhar várias áreas, social, artística, educativa e comunitária, para promover o desenvolvimento pessoal e social de pessoas privadas de liberdade. Quando a cultura é integrada numa abordagem multidisciplinar, os resultados são significativos e duradouros.

O contacto com o exterior através da arte e da cultura é, neste contexto, um ato de empoderamento social e um caminho concreto para a reinserção.

Exemplos práticos de mediação cultural em contexto prisional

Ao longo do meu percurso profissional, observei resultados concretos de práticas culturais e educativas. Destaco algumas iniciativas:

  • Sessões de autoconhecimento com práticas artísticas: escrita criativa, desenho intuitivo e partilha guiada ajudaram participantes a reconhecer emoções, identificar narrativas pessoais e desconstruir crenças limitadoras. Um participante disse que foi a primeira vez que conseguiu “transformar sentimentos em palavras” de forma segura.
  • Ateliers de cerâmica no âmbito da Reshape Ceramics: o processo artístico desenvolveu competências psicomotoras, paciência, foco e autoestima. Muitos participantes sentiram orgulho em criar peças que “representam algo do meu valor e do que posso construir no futuro”.
  • Dinâmicas de grupo para competências socioemocionais: jogos cooperativos e debates orientados estimularam empatia, escuta ativa e cooperação. Muitos sentiram-se mais à vontade para comunicar e reconhecer emoções.
  • Projeto Trégua: demonstra integração entre cultura, justiça social e desenvolvimento humano. Mostra que metodologias artísticas e comunitárias promovem reflexão, responsabilização e construção de novos projetos de vida.

Estas práticas evidenciam que o acesso contínuo a experiências culturais e educativas contribui para o bem-estar, desenvolvimento emocional e competências essenciais à reinserção social.

Concluo sublinhando que o cruzamento entre ação social e mediação cultural tem potencial para gerar impacto transformador, desde que as estratégias sejam contínuas, participativas e orientadas às realidades das pessoas que servem.

Pinto L., (novembro de 2021), A arte como ponte para o exterior, criação artística , prisão , reintegração, Arte Inclusiva? Quem Inclui Quem?, (pp. 109-2021), Repositório Comum, Porto, Portugal. https://comum.rcaap.pt/handle/10400.26/38332 

Read, H. (2007). Educação pela arte, Edições 70, Lisboa, Portugal.

Célia Faísco
Social Impact Project Manager