Porque é que (ainda) se fala tão pouco de reinserção social?

Uma estudante de Comunicação decide investigar a presença da reinserção social de ex-reclusos na agenda mediática portuguesa. O tema parece promissor, mas rapidamente chega a uma conclusão tão simples quanto desanimadora: o tema não existe na agenda mediática portuguesa. Apresenta-se assim uma nova necessidade: por que motivo é a reinserção social sistematicamente ignorada pela comunicação social em Portugal?

Spoiler: não foi difícil descobrir.

É importante começar por perceber que a sociedade portuguesa consome notícias diariamente, seja pela televisão, redes sociais, rádio, ou imprensa escrita. Fontes de informação não faltam, sendo por isso fácil culpar a desproporção de espaço dado a certos temas. Mesmo com tantas opções jornalísticas, a agenda mediática continua a ser um palco desigual: há quem tenha luz de sobra, e quem viva na sombra. A reinserção social encontra-se, claramente, no segundo grupo.

Continuemos a pensar no crime, na quantidade de notícias (informativas, ou não) que nos aparecem diariamente. Pensemos depois quantas delas falam de reinserção social… A conclusão é clara, contudo, provavelmente o que não é claro, é que estamos a falar de um só ciclo de ação: o fim de uma pena privativa de liberdade não é o fim de uma história, mas sim mais um passo no caminho de alguém. A forma como essa transição é comunicada (ou não) influencia diretamente a forma como a sociedade recebe, ou rejeita, quem passou pelo sistema prisional.

Então porque é que (ainda) se fala tão pouco de reinserção? O silêncio mediático sobre a reinserção social de ex-reclusos não é apenas descrédito por parte dos meios de comunicação social. Aliás, nada mais é do que um reflexo da cultura portuguesa, que gosta e busca o imediato, e que considera a prisão como um fim último. Encontramos aqui dois pressupostos perigosos: o imediato muitas vezes peca por falta de informação legítima e a prisão funciona como mais um mecanismo, trabalhando em conjunto com a reinserção social, que aliás, é um direito constitucional português.

Então teremos de olhar para o que move a sociedade hoje em dia: o dinheiro. Chegando à conclusão de que falar sobre reinserção não vende. Dá menos cliques, menos manchetes, menos partilhas. Mas há aqui um paradoxo perigoso: quanto menos se fala da reinserção, mais se perpetua o estigma e maiores são as probabilidades de reincidência — que, por sua vez, volta a ser notícia apenas como mais um crime. Apresentando-se assim um círculo vicioso sem fim.

Este não é apenas um problema dos media ou do sistema prisional, mas sim um desafio coletivo. Falar de reinserção social é falar de direitos humanos, de justiça social e de segurança pública a longo prazo. Precisamos de uma comunicação mais equilibrada, que não alimente o medo, mas que promova o entendimento dos processos de reinserção social e da sua importância para a criação de uma sociedade mais segura. 

Este processo não parte unicamente do jornalismo, apesar de se apresentar como um dos elementos com mais responsabilidade social, na medida em que tem um papel cívico a cumprir, onde demonstrar temas que procurem o melhor da sociedade, devia constituir-se como um dos principais objetivos. Contudo, parte também de nós, leitores, que não deveríamos escolher sempre o imediato e o dramático, sendo importante lutar contra esse vício, procurando consumir notícias que nos informem e não que nos separem.

Sara Sequeira
Estudante de Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação.