NEM DENTRO, NEM FORA

Escrito por: Chiara Serafini.
“La libertà, insomma, aveva una sua geografia”[1]
De quinze em quinze dias, um grupo de voluntários entra num Estabelecimento Prisional e encontra-se com um grupo de homens que aí estão a cumprir uma pena, privados da própria liberdade.
Os primeiros, com base nos temas do programa da Academia Reshape – nomeadamente gestão emocional, autoconhecimento, comunicação interpessoal e muitos outros – partilham ideias sobre atividades a propor num grupo de whatsapp que criaram especialmente para o efeito, decidem em conjunto um ponto de encontro no centro da cidade de Lisboa, fazem uma viagem de carro juntos até ao EP, onde entram durante o tempo da sessão. E depois vão-se embora.
Os segundos, se tudo correr bem – se não houver greves, se as comunicações chegarem às celas, se se portarem bem, se não estiverem ocupados a trabalhar – todas as terças-feiras, às 14h30, vão para a sala que o EP disponibiliza para as atividades educativas, culturais, recreativas e religiosas. Entram pela porta de segurança que separa o pátio da zona dos técnicos, só depois de terem sido autorizados por um guarda prisional. Participam na sessão. E depois voltam para as suas celas, pois ao fim da tarde todos têm de regressar à sua ala.
Visto desta perspetiva, talvez um pouco cínica, o cenário descrito é perfeitamente absurdo. É o resultado de um olhar realista: não podemos, nem devemos, esquecer que os dois grupos se caracterizam por uma total assimetria em termos de liberdade.
Mas é também um olhar plano, incapaz de ler para além da divisão entre um “nós” e um “eles”, entre um interior e um exterior delimitados por muros e sistemas de segurança.
A participação nas sessões de educação não formal promovidas pela Reshape na prisão de Vale de Judeus permitiu-me desenvolver um olhar mais subtil e identificar, no encontro entre o grupo de voluntários e o grupo de reclusos, não só implicações (trans)formativas, mas também políticas.
“Porque usam o vosso tempo livre para estar connosco? Ninguém quereria entrar voluntariamente na prisão…” – a pergunta de A. no final de uma das nossas sessões fez-me pensar no significado da nossa entrada num lugar demasiadas vezes esquecido, geograficamente isolado e relegado para uma retórica conservadora, quando não desumana. “Viemos aqui porque queremos, juntamente com vocês, construir algo diferente. E fazemo-lo encontrando-vos como pessoas para além do crime”, respondeu uma voluntária.
No círculo que construímos com os participantes, abre-se um terceiro espaço: nem dentro nem fora. Uma zona franca entre o frenesim do quotidiano de quem vive a sua liberdade tomando-a sempre por garantida e o dispositivo prisional que pontua impiedosamente os tempos e os espaços de quem está preso. A sala asséptica dos encontros das terças-feiras torna-se num espaço intersticial[2], um lugar simbólico-material de resistência em relação às lógicas penitenciárias e sociais onde se podem experimentar maiores margens de liberdade, especialmente interior.
Com o objetivo de desenvolver competências transversais, através de dinâmicas envolventes a nível cognitivo-corporal-emocional, cada um à sua maneira – mesmo entre nós, voluntários! – pudemos experimentar muitas liberdades: ultrapassar preconceitos mútuos, relacionarmo-nos para além de rótulos e papéis, jogar com a imaginação, mostrar partes mais vulneráveis de nós próprios, experimentar novos gestos, partilhar experiências diferentes e encontrar pontos de encontro, mobilizar recursos e desejos para o futuro.
E, embora este trabalho tenha implicações individuais, não seria possível sem a dimensão formativa do grupo, onde a partilha de experiências, recursos e desafios permite um enriquecimento contínuo. O Outro, seja ele um colega participante nas sessões ou um voluntário, traz novos pontos de vista, com os quais espelhar-se ou criar debates construtivos, e sobretudo pode ser um apoio neste caminho de consciencialização.
Numa lógica de não julgamento e de horizontalidade, em que se baseiam as atividades de educação não formal, o espaço intersticial escapa às amarras dos hábitos mentais interiorizados e permite criar novas formas de relacionamento consigo próprio, com os outros e com a sua própria história. Vi isso acontecer em Vale de Judeus, onde o grupo de homens se envolveu profundamente, expressando as suas emoções e vulnerabilidades com enorme coragem (contra muitas das minhas expectativas, sobretudo tendo em conta a influência da lógica machista que, muitas vezes, é ainda mais forte na prisão do que “fora”), e abraçou as dinâmicas propostas com entusiasmo.
Se a visão fundadora do trabalho social da Reshape gira em torno da vontade de criar ”uma sociedade em que a reinserção seja a regra e não a exceção, em que todas as pessoas que estão ou já estiveram presas tenham as condições para alcançarem o seu projeto de vida”, creio que um ponto de partida fundamental é despoletar processos de possibilitação[3]. Na linha de uma perspetiva metodológica que visa o empoderamento e a reinserção social, a abertura de novas possibilidades no sujeito – entendidas como novas possibilidades existenciais – permite trabalhar os recursos existentes, valorizando-os e levando-os além. Além da violência dos rótulos, além da marginalização, além do que muitas vezes parece ser um destino já selado sem perspectivas fora da reincidência.
[1] Goffman, E. (1961). Asylums: Essays on the Social Situation of Mental Patients and Other Inmates. New York: Doubleday. Edição italiana: Goffman, E. (2010). Asylums. Le istituzioni totali: i meccanismi dell’esclusione e della violenza. Piccola Biblioteca Einaudi. Pag. 252.
[2] Nuvolati, G. (2021, novembre). La funzione degli interstizi tra spazi pubblici e privati. Between, 11(22), 1-15. doi: 10.13125/2039-6597/4578
[3] Bertolini, P., & Caronia, L. (2015). Ragazzi difficili: Pedagogia interpretativa e linee di intervento. Franco Angeli.
Foto: Vadim Babenko, via Unsplash

Chiara Serafini,
Educadora Social, Mestranda na Universidade de Bolonha,
Membro da Equipa de Advocacy da RESHAPE.

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