RISE FOUNDATION: UM LUGAR DE MUDANÇAS

Escrito por: Marta Silva.
No início do mês de julho de 2023 decidi embarcar naquela que foi a experiência mais desafiante e significativa da minha vida. Após o término da minha licenciatura, e ainda indecisa sobre que área seguir, fui fazer um estágio de pós licenciatura em Malta.
Foi-me comunicado que iria trabalhar juntamente com uma fundação de reinserção social, algo que na altura me pareceu uma total novidade, pois nunca tinha ouvido falar de tal projeto ou mesmo de algo semelhante. Penso que nunca teria sequer pensado em como seria a vida de uma pessoa após sentença.
E esta organização era então a RISe.
No meu primeiro dia de interação com a equipa comecei por achar que nada poderia correr pior do que já estava a correr. Com reunião com a minha supervisora marcada para às 10h30 da manhã, sai de casa 1h30 antes, para entrar no autocarro errado e aperceber-me disso quase uma hora depois. Estava sozinha, num país desconhecido, atrasada, sem saber exatamente onde estava e onde tinha de estar. Acabei por chegar mais de uma hora atrasada, muito nervosa e ansiosa por achar que já tinha causado má impressão, e a pedir desculpa. Mas mal entrei no escritório principal dei-me de caras com 2 pessoas que me acalmaram, que fizeram daquilo uma brincadeira, e que foram incríveis durante os meus três meses no local.
Estas pessoas foram o Sr. Charlie Mifsud e a Purdey Bartolo, pessoas estas que não posso deixar de falar. O Charlie é o fundador da RISe, um homem dada a muita simplicidade e de uma alegria imensa, era impossível não se sentir feliz ao lado dele, sempre muito engraçado, compreensivo e amigo de todos. A Purdey é a coordenadora do programa, uma mulher lindíssima, por dentro e por fora, de uma simpatia de outro mundo, que me acolheu como se fosse dela, preocupou-se constantemente com o meu bem estar, esteve presente quando tive uma infeliz situação, mandando-me mensagens diariamente para saber como estava, se precisava de algo. É uma pessoa que marca vidas, e que tem um cantinho muito especial no meu coração.
Após o meu atraso e de ter conhecido estas duas pessoas, fui então dirigida à minha supervisora, a Yannika Tabone, uma psicóloga forense, com um lado muito humano, com uma simpatia e carisma enorme, apaixonada por gatos, e uma excelente profissional. A Yannika é outra pessoa muito positiva, não levou sequer a mal o meu atraso, brincando até que estava a entrar no espírito de Malta pois eles andavam sempre atrasados.
Ela explicou-me tudo sobre o programa, mas claro que para um primeiro dia, era muita informação, então nada melhor do que pôr as mãos na massa. Foi assim que fui pela primeira vez à residência, aquela que se tornou a minha casa e porto seguro durante três meses.
Falando um pouco da RISe, esta foi fundada pelo Sr. Charlie Mifsud e pelo Padre Franco Fenech, é uma organização não governamental localizada em Valletta, com o objetivo de ajudar no problema da reincidência, onde se acredita que todas as pessoas têm direito de acesso à reabilitação.
Além disso, a reabilitação é realizada num ambiente não prisional, a fim de encorajar a noção da reintegração na sociedade e é composta por uma equipa que realmente acredita no conceito de reabilitação e reintegração.
Atualmente tem apenas uma residência para homens privados de liberdade, com capacidade para 10 homens que são gradualmente integrados na sociedade, durante normalmente um período de um ano, por meio de vários serviços que a fundação oferece.
É um programa dividido em 3 etapas: na Fase 1 dá-se a transição, a introdução da estrutura da casa, fazem-se várias avaliações, reuniões individuais e sessões em grupo, e são feitos os planos de cuidados individuais, na Fase 2 faz-se um treino de emprego com um período de experiência, tem cuidados e apoio individuais, apoio familiar e começa-se a reintegração gradual na sociedade. Por último, na Fase 3, a que eu experienciei, eles já têm trabalho em tempo integral, continuam-se os cuidados e apoio individuais, o apoio familiar, a reintegração na sociedade e o apoio habitacional.
No dia a dia, os residentes seguem o Programa Inicial, um programa diário com uma estrutura com atividades. O programa diário consiste na realização de tarefas gerais de casa e culinária, reuniões individuais, sessões de educação e grupo terapêutico, socialização e integração com o mundo exterior por meio de passeios, recados e visitas.
Era muito interessante ver como eles se habituaram a todo este novo mundo e o quão gratos se mostraram por ter aquela oportunidade. Todas as sextas-feiras tinham uma pequena saída, onde, ao pé do mar, comiam e conversavam, passando o tempo. Fiz parte de algumas saídas, e era muito gratificante ver como as pequenas coisas na vida, que por vezes não paramos para aproveitar, faziam a diferença para alguém, não só as saídas, mas apenas o simples gesto de abrir uma janela, ou uma porta.
Algo muito positivo que vi na RISe é que, realmente, entre o staff e os residentes não haviam hierarquias, éramos todos pessoas, com sentimentos, com personalidades diferentes, com uma história. E tenho a dizer que os 8 residentes que conheci marcaram a minha vida de um jeito muito especial. Aprendi imenso em conversas com eles, a observá-los, e fizeram com que me sentisse em casa e fosse uma experiência realmente feliz.
O meu trabalho era essencialmente de observação. Convivia com os residentes, apontava se necessário alguma informação mais importante no livro de registos e verificava se as tarefas estavam a ser corretamente realizadas. Mas passei grande parte do meu tempo em convívio com todas as pessoas daquela casa.
Estas pessoas mudaram, e mudam vidas. Esta organização não se fica apenas pelas palavras que defendem, mas, mais importante ainda, eles tem ações de iniciativas, eles fazem acontecer. Quando um residente sai em liberdade, eles não lhes fecham a porta, pelo contrário. Eles estão lá para continuar a ajudar, para prestar apoio psicológico se necessário, ou apenas para ouvirem. Eles importam-se realmente. São um catalisador de mudanças positivas movidos por ideias e vontades.
Esta é apenas uma breve parte por detrás de toda a história e todos os feitos da RISe, e gostava que todos pudessem ter a sorte de passar por esta experiência, de perceberem a importância que estes programas têm e a necessidade que há na sua existência.
Esta foi a minha experiência, e só tenho a concluir que realmente a RISe é um lugar de mudanças.
Referencias bibliográficas: https://www.risemalta.org.mt/

Marta Silva
É estudante de psicologia, tem 21 anos e é natural de Viseu.
Acabou a licenciatura no ISEIT em 2023
e 15 dias depois seguiu sozinha para Malta,
onde trabalhou durante 3 meses com a RISe.
Hoje está a fazer o seu mestrado em psicologia da educação.

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