THE GOOD PLACE – uma reflexão sobre o bem, o mal e o caminho entre ambos

Estreada em 2016, The Good Place é uma excelente série para quem quiser misturar o debate de questões filosóficas com muito, muito humor. Nesta série encontramos uma imaginação bastante criativa do que serão, na cultura religiosa, o Céu e o Inferno. Não tenciono colocar spoilers nesta pequena reflexão, mas de uma forma resumida, o tema base da série é o debate de como pode alguém aprender a ser bom e, no fundo, o que distingue realmente o ser bom ou o ser mau (tema que já abordado anteriormente nesta crónica: “As pessoas são más ou fazem coisas más?“).

Segundo o criador Michael Schur, uma das principais inspirações da série (e que aparece frequentemente no próprio cenário) foi “What We Owe Each Other”, um livro de filosofia igualitária de Scanlon. Só o nome do livro pressupõe que, de facto, estamos em dívida moral uns para com os outros e temos obrigações para com todos – o título é uma afirmação e não uma pergunta. Scanlon afirma que uma vida boa depende do “valor positivo da forma como vivemos com os outros”, que devemos governar a nossa vida por regras que os outros não possam rejeitar de forma lógica, e que a procura por essas regras deve ser constante e infindável. Essencialmente, devemos às outras pessoas tratá-las de acordo com o seu valor, como seres Humanos e vivos.

Existem muitas situações em que, infelizmente, inúmeras pessoas não têm o direito de ser tratadas com o valor que um ser Humano merece. O modelo de prisão atual, com privação completa de autonomia, dignidade e, muitas vezes, de acesso a cuidados de saúde (especialmente saúde mental), não é, de todo, a idealização da manutenção do valor de todo o ser Humano. Os erros de uma pessoa não a tornam inqualificável para ser detentora de tratamento digno na sua qualidade de ser Humano, até porque uma pessoa não se define pelos seus erros.

Isto leva-nos à principal questão debatida em The Good Place: é possível alguém tornar-se melhor? Uma conclusão frequente das personagens ao longo da sua viagem moral é que é difícil ser-se boa pessoa quando o mundo se tornou tão complicado que ninguém consegue ter perfeita noção das consequências das suas ações. Para além disto, as personagens debatem-se frequentemente com a necessidade que sentem de gratificação após o esforço de serem bons, e que muitas vezes nunca vem. Isto leva a que, sendo imperfeitos como todos os humanos, cometam inúmeros erros, inclusivamente no caso de Chidi, um professor que passou toda a sua vida a estudar filosofia e ética. Todas as personagens principais são, aliás, exemplos de vida com um elevadíssimo teor de ações menos corretas e decisões erradas – tal como a vida de todos nós. No entanto, todos, com maior ou menor esforço, têm a capacidade de se aperceber que é necessário lutarem para serem melhores, mesmo com contratempos, mesmo que por vezes caiam em ações menos dignas, o importante é continuarem a tentar.

Todos precisam de ajuda e nenhum deles consegue fazê-lo sozinho. Também no mundo real, é importante ajudarmo-nos uns aos outros a ser melhores – é importante darmos oportunidades que permitam a toda a gente melhorar, e condições que proporcionem a essa melhoria. Tal como eventualmente se reforça em The Good Place, “We choose to be good because of our bonds with other people, and our innate desire to treat them with dignity. Simply put, we are not in this alone”, ou traduzido, “Escolhemos ser bons por causa das nossas relações com os outros, e do nosso desejo inato de tratar os outros com dignidade. Por outras palavras, nós não estamos sozinhos nisto”. Já se identificaram com esta sensação? Seguimos juntos.

Fotografia do cartaz da série, disponível na Netflix.

Sofia Belém
Voluntária na RESHAPE